O modo de sentar, no dzogchen, é igual ao modo de se levantar. Não nos fechamos, não agarramos, porque o elemento que nos relacionamos é o espaço, o mais sutil e mais presente em todos.
A intensidade do fogo, a maleabilidade da água, a estrutura da terra e a liberdade do ar se dão no espaço.
Uma relação sem espaço morre.
O fogo da relação se sente abafado.
A emoção fica contida.
A terra fica seca.
O ar fica rarefeito.
Há uma diferença muito grande em agarrar uma ideia sobre si e soltar.
Ser o “agarrador”, ser “quem” sabe, ser “quem” segue seu impulso…
Se sustentar pela relação com objeto agarrado, pelo objeto sabido, pela emoção priorizada, pelo impulso seguido…
Sujeitos viciados em objetos, dominados pelo apego, refém da manutenção de suas próprias histórias…
Por isso, vemos que no ato de soltura, muitos obstáculos caem.
Por isso, louvamos tanto as crises: momentos de aprender a soltar.
Esse é o único caminho que não teme a morte porque reconhece que a morte não pode ferir o espaço.
A morte só fere o apego porque esse acredita no sujeito que se agarra no objeto agarrado.
O apego quanto mais se intensifica, mais tenso se torna.
Se é apego ao negativo, mais fundo entramos em lugares difíceis.
Se é apego ao positivo, mais medo temos que a situação mude.
A soltura, o modo solto, o modo natural, não cria nada.
Não há espaço para o narcisismo budista que se sente “capaz” de fazer algo diferente ou encontrar um estado especial.
Não há nada a falar sobre a soltura.
Apenas, solto, sendo fogo, quando precisa, sendo água, quando precisa, sendo terra, quando precisa, sendo ar…
Sendo amor, sendo dor.
Mas sem agarrar nada porque sabemos como a história do apego a algo é trágica.
Ainda assim, presentes.
Todos os dias, presentes.
Presente à abertura, como abertura.
Deixando cair e murchar tudo aquilo que era esforço e tensão.
Sem nenhuma expulsão ou ritual: apenas abrindo-se ao aberto.
Onde os demônios vão se agarrar se não ofereço ganchos nem gatilhos?