De quem é a culpa da ignorância? Ninguém.

Quando a mente não consegue estar em paz com o que se é, ela busca um objeto para basear a sua estabilidade.
É assim que tornamo-nos “objetos” de “ideias” que temos sobre nós mesmos. Essa “formação” foi construída em um momento em que montar-me como um sujeito específico e objeto específico era necessário para sobreviver emocionalmente e existencialmente a contextos familiares, comunitários, etc.

Então, o que acontece é um “apego” ou uma “fixação” a uma “formação”, sem perceber as causas e condições que possibilitaram que isso fosse assim.

Por isso, dizemos, é da ignorância, ou desconhecimento da verdade sobre a mente, que, como um bêbado que acorda embriagado no meio da noite, saímos agarrando coisas, tropeçando em algumas e nos identificando com outras.

É nesse sentido que o mestre do professor James Low dizia: “Eu sou o mentiroso número 1”, porque ele percebia o jogo de identificações do ego e a forte crença associada nisso.

Por isso, partes reprimidas e partes ativas em nós se relacionam de maneira tão curiosa no amor: algumas querem aquilo no outro que não está sendo oferecido para nós (liberdade, alívio, vitimismo, dependência), outras querem fazer com o outro aquilo que fizemos em nós (rigidez, doutrinação, silenciamiento), etc.

Na medida em que construo e me fixo em um personagem para mim, estou separando a minha experiência e priorizando determinados aspectos da minha personalidade em detrimento de outros, determinadas áreas da vida em detrimento de outras. E essa separação apenas começa com a simples frase: “Eu sou assim…”

É nesse sentido que, no budismo dizemos: somos ignorantes e é por nos agarrar a algo (identidade) que fazemos com que nossa ignorância seja encoberta e ainda fique forte, firme, cheia de convicções.

Mas se eu mantenho o meu padrão sobre mim, meu processo relacional sempre vai ser difícil porque estarei me atraindo pela rigidez ou qualquer outro mecanismo em mim (atração direta) ou por aquilo que não estou oferecendo para mim (atração indireta).

Partes minhas querem resgatar.
Partes minhas querem ser resgatadas.
Partes minhas querem controlar.
Partes minhas querem controlar o outro como aprenderam a me controlar.
E segue o baile.

Como vocês veem, esse é o drama da ignorância, a potência criativa de tudo fica restrita à atividade de “alguém” que (acha) que “sabe” a verdade.

O apego se torna assim uma ferramenta de “cola”, dependendo de como o sujeito se monta, determinadas emoções, mecanismos, sensações, memórias, percepções, impulsos e reações são agarradas em detrimento de outras.

De quem é a culpa da ignorância? Ninguém.
De quem é a culpa do desastre que é se relacionar a partir da ignorância? Ninguém.
Mas quando você percebe, sua visão se abre de uma maneira diferente porque você descobre: o que faço comigo, faço com o mundo, e quando “solto” eu encontro, no mínimo, mais alívio.


Voltamos para aquela ideia: “não sou uma coisa em um mundo de coisas”.

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