1. Quando a mente não consegue perceber o “brilho” ou “radiância” inata dela, a experiência de “estar aqui” não é suficiente. Isso é chamado de ignorância. Acreditando-se “algo”, estamos a mercê das forças da semelhança e da oposição aquilo que temos atração e temos aversão. Quero mais do que é parecido comigo, quero mais do que sinto falta, quero menos do que não gosto ou do que é diferente de mim. Isso se dá porque ao me instituir como “algo” estou impregando esse “algo” com força, com energia em uma determinada direção. Estou me separando do todo e me construindo como um “sujeito” específico que também se torna objeto de si mesmo. (“Por que não estou sendo o que eu gostaria que eu fosse?”) Nas nossas práticas, o primeiro ponto a ser trabalhado é sempre esse: ignorância e compreensão dos efeitos desta e a lucidez (ou o reconhecimento da verdade).
Quando “eu” crio a “mim”, a partir do brilho natural da mente, estou sempre tendo que agir e me mover a partir da definição que criei. Mas esse “eu” que crio não é permanente nem total, “eu” na condição de energia investida também mudo, também escapo porque também não sou uma coisa nem existe uma verdade absoluta sobre o que construo sobre mim.
Vocês devem imaginar a confusão que é se relacionar, nesse sentido, porque geralmente vamos “energizados” com os “nossos” referenciais que são, eles mesmos “limitados” e “impermanentes” e “não definitivos”, embora não nos vejamos assim. Para que a peça ou o filme seja bom, preciso ter fé ou acreditar nele.
Então, é nas relações que vemos o estrago das projeções, isto é, da particularização do brilho da mente. Por isso, na nossa prática, a definição sobre a mente é o mais importante de tudo, é onde precisamos de bastante experiência e vivência. Porque de, outra maneira, estou acreditando no filme, que às vezes é um musical, às vezes é um pesadelo, mas, das duas formas, “eu acredito”.
Meditar é questão de saúde pública nesse sentido porque somos armas de projeção e também somos reféns das projeções dos outros. É por isso que a paixão tão facilmente se transforma em ódio ou em tristeza.
Quando vocês vêem nas famílias, o mesmo se aplica. Não se pode querer que uma mãe deprimida seja uma “mãe”, então introjeto visões negativas sobre “mim” e sobre “ela”. Como “você” não me deu o que “eu” precisava, eu te odeio. Como “você” não me deu o que eu precisava, “me” odeio. Por que? Porque, quando criança, eu era um transe de necessidade, “eu” era a “minha” carência…
Se falarmos dos pais então… 🙈
Sim, quando estamos menos autocentrados em nós e menos apegados a “nossa” forma de contar nossa história, a compaixão surge. Às vezes, nem vemos que estamos sofrendo ou causando sofrimento porque estamos apegados a ignorância “isso sou eu”, “assim é a vida”.