A crise nas projeções como caminho de descoberta – parte 8

O caminho transforma-nos não porque temos aspectos que precisam ser rejeitados. Ele transforma-nos porque deixamos de nos segurar onde estávamos hipnotizados e abre-nos para outras fontes de nutrição.

Para isso, é importante o reconhecimento do vício em aspectos mentais de si, em aspectos de relação, em formas de se predispor ao mundo, em formas do mundo, etc. O nosso caminho não começa dizendo que você é especial, mas diz que você está preso enquanto não reconhece que tudo é especial.

Outras tradições enfatizam que o ego é especial e que o superego (a parte que domina as regras e dá a sensação ao ego de que ele está fazendo tudo certo ou não) é especial. A nossa tradição diz que apesar de tudo estar pacífico e manifestando-se, momento a momento, os seres querem uma manifestação específica e querem segurá-la, como se isso fosse possível. Eles não querem, desse modo, se relacionar com o momento tal como esse se apresenta e sim com o que querem dele.

Por isso, suavizar o coração é importante, deixar o momento falar por si, e, dessa maneira, ir libertando a libido do enrosco, dos lugares larvais, das opções insuficientes.

À medida que o desapego interno vai revelando que o campo de experiência é muito mais vasto, as imagens idealizadas de si e do mundo, os mecanismos mentais que mantém o destino ativado, as forças reativas como cansaço, raiva, fuga, dissociação, etc, vão cedendo como aspectos do eu. Isso significa o repouso na luz ou o reconhecimento de que tudo é o processo, a apresentação contínua da mente.

Isso é como perdoar alguém, é como se perdoar também. Subitamente você descobre que não precisa mais segurar aquela dor. Também é como descobrir que algo te faz bem e ter um insight sobre o que fez você manter uma visão pequena consigo mesmo. Significa que, subitamente, por um deslocamento ou um passo para trás, eu não estou mais preso naquilo que estava.

Então, isso significa que uma consciência que estava fixa em algo e operativa ali, não está mais. Ela não tem mais a necessidade de estar, porque viu algo mais amplo.

A possibilidade de haver uma forma mais ampla de olhar para si e para o mundo, com menos sofrimento e de, eventualmente, poder ajudar os seres nessa direção, é o que motiva os praticantes e estudantes desse caminho.

De um lado, estamos muito interessados na nossa desintoxicação, e do outro estamos também muito interessados na desintoxicação do mundo – porque vemos, em todos os momentos, o sofrimento daqueles que estão intoxicados.

Quando sentamos na prática não dual, estamos sentando com esse desapego, não como um eu.

Se por acaso nosso eu estiver muito forte, seria bom cuidarmos dele com compaixão e apresentarmos as categorias de carma, impermanência, sofrimento e momento oportuno.

Depois dessa apresentação, o eu descobre que é mais limitado do que imaginava, mais alucinado do que percebia. Quando se dá conta integralmente da sua limitação e se pergunta como seria a sobriedade, o eu consegue ir em busca de melhores respostas para sua vida, resolver melhor suas questões para ganhar tempo e focar no que realmente importa. Nesse sentido, o eu passa a utilizar as categorias de carma, impermanência e sofrimento como potencializadores do momento oportuno. Ele deseja criar bom carma, deseja evitar as causas do sofrimento, deseja ocupar a impermanência com uma boa estratégia.

Então, dessa forma você não perde a chance de criar a oportunidade de construir uma boa vida, uma vida mais justa e ética para si e para os outros, uma vida enraizada em princípios interessantes. Isso vai trazer um eu forte, coerente, centrado que é necessário para garantir as condições da prática.

Contudo, se você se agarra a esse eu, você volta a criar um apego e é seduzido pela oportunidade de criar boas ações, o que faz com que, mais uma vez , fique agitado e predisponha-se a muitos movimentos. Assim fica fácil não continuar o caminho que é perceber que a base desse eu forte é vazia, que ele não tem um fundamento real.

Então, se dissemos que você, primeiro, deve resolver bem a sua vida e sair de um estado larval, significa que você deve construir uma boa base e realizar os seus desejos tendo em vista o carma, o sofrimento e a impermanência. Mas, na sequência, você precisa perceber que a categoria da vacuidade é o ponto fundamental de compreensão de si mesmo e do mundo, a grande desintoxicação: você não é uma coisa no mundo de coisas porque a coisificação é apenas um movimento da linguagem, um movimento iniciado pelo não conhecimento de que tudo é abertura e potência.

Escrevo com o objetivo, acredito, de que vocês possam perceber onde é possível se relacionar com os ensinamentos dos professores e professoras, e a partir de que aspecto seu.

Você está idealizando?

Está dissociando?

Está fortalecendo o senso do bom menino e boa menina?

Está usando a instrução para culpar-se? Ou para inflar-se?

Para atrair pessoas ou para justificar sua separação do mundo?

Tudo isso são formas de agir internalizadas que utilizam a meditação para dentro da mesma história de sempre.

Meditar sobre a impermanência, carma e o sofrimento é como ajudar você a construir uma boa bússola.

Fugir disso é como manter-se em um estado inconsciente, sendo levado pelos ventos do mundo e do outro.

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