Até então nós vimos dois pontos importantes utilizando as abordagens do caminho budistas como referência para a construção do processo amoroso: o primeiro é que precisamos ter um bom discernimento interno sobre causa e efeito, sobre o impacto do que mantemos dentro de nós, e o efeito disso. Isso significa que precisamos ter uma perspectiva tanto saudável quanto sábia, propositiva, sobre as nossas ações conosco e com o mundo interno.
Em segundo lugar, vimos como, no budismo, passa-se a utilizar o outro como um convite à abertura e ao autoconhecimento. Isso significa que verei onde estou apegado a mim na medida em que me exponho à diversidade de experiências do mundo. Quanto mais estou fixo na ideia de que sou uma coisa, menos flexibilidade terei para estar em relação e para cumprir os objetivos do primeiro ponto. Afinal, estou apegado a um aspecto e não estou conseguindo lidar com a diversidade ou necessidade do momento. O aspecto subjacente que está presente aqui é que a perspectiva é tudo: se olho para mim sob uma perspectiva limitada, é natural que irei buscar o outro para me equilibrar. Também aqui começo a descobrir que a relatividade introduz um ponto curioso: se tudo é perspectiva, desde que ponto digo que eu sou “eu”, ou que o outro é o que digo que é?
Quando pensamos em uma relação amorosa, seja consigo seja com o mundo ou com o outro, vemos que o objetivo pretendido é tanto a paz quanto o interesse. Isso significa que não podemos nem ser completamente pacíficos, a ponto de não termos apreciação pelo outro, nem completamente interessados a ponto de não darmos espaço para que a outra pessoa respire. Significa que é preciso encontrar um ponto médio para que tanto possamos estar tranquilos quanto levemente provocados ou convocados pelo outro. É claro que, quando uma relação é muito pesada, precisamos ter menos interesse e mais paz. Quando estamos diante de uma provocação, a mesma coisa. Já se queremos conhecer mais sobre algo em nós que machuca o outro, precisamos ter interesse, desenvolver essa intenção.
O terceiro caminho no budismo é o chamado percurso mágico no qual é apresentada a ideia de que, sendo a abertura, indefinição e potencial criativo as características fundamentais da realidade, e abraçando-a, temos acesso a forças que podem nos ajudar a amar melhor e a introduzir-nos mais a nossa própria abertura e criatividade. Nesse sentido, eu não apenas olhei a potência da realidade criativa como também o impacto das minhas ações, como também passo a descobrir que, energeticamente, posso me desdobrar em outras formas de ser a fim de reunir tanto amor quanto sabedoria. Esse caminho é mágico porque passo a perceber que a criatividade está em tudo e que há inteligências vivas de amor e compaixão espalhadas em muitas formas na realidade mágica. Há forças transcendentais que, quando invocadas, podem apoiar o meu processo de perceber que não sou uma coisa e sim um processo. Podemos pensar, por exemplo, que, na sua vida, é bem possível que você não tenha sido introduzido a alguma habilidade da vida como a autocompaixão ou a organização financeira, ou o auto-respeito ou um contato apreciativo com o corpo. E então, você precisa ir para terapia para se dar conta disso e aprender porque esse lugar está adormecido em você. Ou você vai aprender com alguém que sabe disso e passa a ter ensinar. Esse é o sentido, muito presente nessa abordagem, da palavra iniciação ou empoderamento, na qual você é introduzido a uma inteligência transcendental em uma forma específica para que aumente a sua sabedoria, seu amor e sua capacidade de se relacionar de forma benéfica sem fazer isso como um processo do ego e sim como uma busca amorosa na direção do espaço sempre presente. Com isso, a relação ganha novas facetas e mais apegos são liberados. Esse é o caminho dos bruxos, bruxas, dos iogues da floresta e outros seres que aprendem secretamente a se transformar em outros seres e assim liberam-se do peso de se sentirem “coisas”. Na nossa tradição, o mais famoso deles foi Padmasambava, que significa “Aquele que nasceu do lótus”.
Antes de seguir, vamos checar se está claro como as três anteriores estão conectadas: discernimento causal, abertura e criatividade ajudam-nos a ver que tudo é caminho de aprendizado no processo amoroso.