Quando a mente está presa na armadilha da própria construção, a máscara quer ser amada à sua maneira, as emoções querem ser resgatadas ou manifestar à sua maneira, o corpo e suas estratégias internalizadas de fuga, controle, esforço, desistência, despotencialização, também não consegue deixar de se afirmar.
Isso significa que abordamos o outro para dentro da trama dessa confusão, às vezes queremos ser amados pela performance da nossa máscara, às vezes queremos ser amados pela aceitação das nossas emoções mais difíceis e regredidas, às vezes não conseguimos amar porque estamos presos nos nossos próprios mecanismos do passado.
Então, quando falamos de “recentrar”, de trazer o corpo, fala e mente de volta para casa, estamos buscando parar de envolver o outro nas nossas questões inacabadas.
O outro não é a resposta para o desejo de aceitação da minha máscara. Também não é o responsável pela aceitação das minhas emoções mais difíceis nem por resgatar a minha carência.
O outro também não tem como lidar com os meus mecanismos internalizados que, como estão focados na minha sobrevivência emocional da infância, terminam causando instabilidade e conflito na relação do presente.
O amor que essas partes desejam é sempre limitado porque está dentro de uma agenda que elas não sabem desmontar. Elas querem o outro para cumprir papéis de confirmação ou papéis de redenção ou para reviver seu drama do passado.
Mas qual a dificuldade?
O “outro” pode ter elementos do nosso passado, mas também ele é algo livre do nosso passado, o outro não é uma coisa que consigo tão facilmente encaixar na minha história.
De um lado, me atraio pelo passado mas também encontro algo diferente, algo que não necessariamente me confirma ou, que me confirma tanto e me devolve tanto ao passado que preciso aprender a oferecer meus limites como parte do meu crescimento e amadurecimento emocional.
Nesse sentido, as relações afetivas ou amorosas são elas mesmas o melhor lugar de crescimento e de reconhecimento do nosso mundo interno, ainda que seja um aprendizado mais duro, como aprender a nadar em mar revolto.
Aprender que o outro que amo e amei – mãe, pai, filho, filha, amante, irmã, irmão, amigo, amiga – é e não é o que esperei que fosse é o início da crise que abre espaço para um novo nascimento: eu também sou e não sou a fome do passado, a imposição da minha máscara, a força das minhas partes emocionais e traumáticas. Isto é, eu não sou apenas isso, eu também posso aprender a estar na relação e para isso vou descobrir que estar em relação não é algo que se faz pela força e sim pelo reconhecimento da própria dança de ser, não ser e ser.
Em outras palavras, a pessoa que amo não pode ser apenas a confirmação da minha fantasia, nem o acolhimento total nem o maior monstro.
Meu amor é o passado e também é o convite para ir além e ver com novos olhos e descobrir que posso ser diferente, que há formas de olhar para ele/ela que abrem portas, ou que fecham.
Como todos estamos em relação, essa é a experiência secreta de olhar, secreta porque é silenciosa, não precisa ser conversada necessariamente.
A relação é o lugar da contemplação porque lá consigo ver tanto a minha fome, minha imposição de destino, minha máscara quanto que também não sou nada disso. É na relação que conseguimos ver que a permanência ou insistência de um só aspecto nosso ou só um aspecto do outro é limitado demais e vai ser a fonte de muito sofrimento.
Então, a meditação não dual, a prática de simplesmente sentar e abrir-se sem foco é antes de mais nada um ato de compaixão e de aprendizado relacional profundo porque descobrimos que também não somos nada do que vem na mente, no corpo, nas sensações. Tudo vem e vai e continuamos abertos e sendo/presenciando a abertura.
Nesse sentido, vamos aprendendo mais sobre o amor.