Quando queremos aprender a amar, podemos fazê-lo à semelhança da pedagogia das quatro abordagens dos ensinamentos presentes no budismo:
1 – O amor é um cuidado, é cuidar das causas e condições. É ser capaz de escrever cartas de amor para si mesmo antes de abrir-se para alguém. É ter discernimento sobre o que se coloca dentro e o que se projeta fora. É perceber como posso estar preso a ideias equivocadas, a uma máscara. É perceber como posso ter partes famintas e ansiosas. É perceber como posso ter partes que boicotam, que repetem os padrões do passado e que eventualmente buscam por estes porque não experimentaram o novo, a paz, a nutrição verdadeira.
Isso significa que, para amar, preciso aprender a me recolher, recentrar e examinar o corpo, a energia e a mente. Preciso perceber a oportunidade que o momento presente abre, a continuação do meu fluxo mental e das minhas ações (examinar o carma que construo), perceber o sofrimento como meu aliado pedagógico mostrando o que acontece quando estou dominado por ignorância e apego e perceber que a impermanência não é minha inimiga e sim uma grande aliada pois ela me convida a experimentar a plenitude do presente e não a ficar preso em suposições e fantasias.
Tradicionalmente, esse é o momento em que os monges e monjas se afastam do mundo e vão meditar para observar sua mente, perceber e purificar sua intenção e potencializar as ações positivas e diminuir as negativas.
Em qualquer relação, isso é algo que precisa ser feito.
2 – O amor é uma abertura inesperada a qual eu preciso me abrir para poder aprender a ir além das minhas marcas.
Se eu tenho cuidado excessivo, posso criar tensão. Então, depois que nos cuidamos bastante, é preciso treinar abertura. Quando fazemos isso, fazemos à maneira da paixão e o objeto da nossa paixão são os seres todos e, também, aqueles que “convocam” nosso amor. Então, para aprender a amar, eu não preciso apenas verificar o processo anterior, a semelhança dos que estão se observando e se contemplando, eu também preciso me abrir para tudo o que se apresenta como um convite relacional, para tanto treinar o discernimento do sim e do não como, também, ver a particularidade de cada momento e de cada ser que se apresenta na minha jornada. Dessa forma, inevitavelmente eu vou aprender sobre as minhas marcas, meu jogo, meus pressupostos e aquilo que tomo como verdade, como, também vou descobrir que, se quero estar na relação preciso ir para um ponto mais amplo e aberto sobre mim e sobre o outro.
Pessoas excessivamente idealistas por exemplo, necessitam de mais idealização?
Pessoas excessivamente pessimistas, por exemplo, necessitam de alguém que tente retirá-las disso?
Pessoas indisponíveis precisam de alguém ao redor delas tentando mostrá-las que o amor é possível?
Talvez não. Talvez idealistas precisem de mais limites, pessimistas precisem de uma companhia não demandante, indisponíveis precisam aprender com a sua própria indisponibilidade. E como isso acontece, como sei o que é preciso fazer? Simplesmente eu fiz o trabalho anterior e agora estou observando que toda ação traz uma reação. E, por isso, estou mais atento ao desdobrar da ação, ao surgimento de como se mostra porque eu não quero machucar o objeto da minha paixão.
Nesse sentido, eu vou descobrindo como quem cuida de uma planta, que ela tem necessidades específicas sobre água, luz, solo, etc. Por que eu gosto de colocar água nas plantas, não significa que possa aguá-las da minha maneira. Isso é apenas o “meu” jeito, mas a relação é também estar com elas e abrir mão do meu desejo de nutrir o mundo, de me sentir o nutridor. Tem plantas que posso literalmente afogar, tem plantas que posso matar com meu excesso de vontade de fazer do meu jeito.
Então, na relação, eu preciso abrir mão do “meu” jeito e estar com o outro na modalidade dele e também na minha. Em outras palavras, a minha máscara pode ter ideias sobre mim, sobre meu corpo, sobre a forma como organizo minha vida, mas isso pode ser um equivoco, pode estar baseado em padrões antigos ou familiares ou reativos a dores de muito tempo atrás. Então, eu posso também estar afogando aspectos meus, tirando a nutrição e sendo obsessivo em relação a outros aspectos. Posso ser bastante contraditório comigo mesmo e me distanciar do amor.
Algumas pessoas, por exemplo, detestam baratas porque elas são nojentas embora elas, enquanto animais, estejam o tempo todo se limpando, elas precisam ter as patas limpas para poder se mover rapidamente. Só que quando as pessoas as matam e vêem as tripas desse serzinho exposto, dizem que é nojento.
Então, o dialogo poderia ser:
“Apesar de morar em lugares escuros e cheios de dejetos de vocês, eu me limpo bastante”
“ Não importa, eu sei quem você é, a prova é que quando eu te mato, é nojento.”
“ Mas eu apenas habito o lugar onde está a sua sujeira.”
“Eu não quero saber de você nem da minha sujeira”
“Eu sou sempre limpo e organizado, você não.”
Baratas, ratos e outros animais ditos “perturbadores” apenas lembram para nós como somos falsos na nossa ideia de quem somos e estamos distantes de acolher a vida como ela é realmente é nas suas diferentes expressões, incluindo essa expressão em nós mesmos.
Então, nessa parte, estamos como “apaixonados pela vida” e não queremos abandoná-la, nem deixar a interface “suja” nem ficar apenas com a “bonita”. Nesse momento estão compromissados com o outro, com a intenção de aprender e de manter a relação viva como um caminho de aprendizado sobre a minha própria maleabilidade, sobre onde sou frouxo demais e onde sou rígido demais.
Essa modalidade é dos bodisatva, aqueles que se abrem para a expressão conectada do mundo como uma forma de aprender e de mostrar que há formas mais amorosas de estarmos juntos. O objetivo deles é que, ao vermos a flexibilidade, possamos descobrir que não somos uma coisa e sim somos processo. Dessa maneira, nossas relações não são mais “fardos” e sim processos de aprendizado.