Construir o caminho que leva até o amor – parte 1

O nosso tema é o caminho do amor e vamos ver isso a partir da perspectiva da máscara e do processo. A máscara é a configuração estável que herdamos e que criamos tanto a partir dos nossos pais como com eles. Quando falamos “pais”, também estamos falando de família, comunidade, sociedade, etc. Então a máscara é uma forma de encaixe.

A máscara aprende a posicionar a razão de uma maneira, o corpo e as emoções de outra, então, ela funciona a partir de um mecanismo, de uma forma pré-estabelecida de manter o fluxo do que somos. Geralmente, a parte mais forte na máscara é a imagem que passamos para o mundo. Algumas pessoas, por exemplo, evidenciam uma máscara bondosa, outras evidenciam uma máscara rígida, outras uma máscara amorosa, outras uma máscara dura, etc.

Aquilo que é colocado em perspectiva, diante, da máscara, é a forma como indicamos que queremos ser vistos. Em grego, a máscara é uma “per sona”, é o som através do qual somos reconhecidos.

Algumas pessoas tem a voz doce, como se pudessem acalmar o mundo, outras tem a voz fraca, como se estivessem sempre faltando forças, outras tem a voz firme, como se soubessem sempre para onde estão indo, outras tem a voz dúbia, como se precisassem mostrar que tem medo, outras tem a voz corajosa, como se fossem merecedoras de confiança, outras tem a voz ríspida como se esperassem o pior…

A máscara, por isso, está na voz, e a voz está na máscara.

Antigamente, falava-se do filtro dos sonhos, que era um artefato dos povos originários da chamada América do Norte, cujo objetivo era “purificar” as energias negativas. Do mesmo modo temos os sinos orientais que trazem boas energias ou as bandeiras de oração budistas, o cavalo de vento. Tudo isso são lembretes para a mente saber se posicionar na direção correta e se colocar “no caminho das bênçãos”. Contudo, não temos como tatuar isso em nós, nem andar por aí com nossas bandeirinhas penduradas. Temos um desafio maior que é o fato de termos um “nome” e que este possui a carga da nossa máscara, a reatividade ou adesão às orientações que recebemos de pai, mãe, família, etc.

Então, como você pode imaginar, é impossível beijar alguém com máscara e, por isso, é díficil meditar com máscara. Parto aqui dessa ideia com vocês, a de que o beijo e a meditação são processos muito parecidos, porque ambos envolvem estar “sem intermediários”, estar diante do que se apresenta. Quando beijamos alguém que amamos ou por quem sentimos muita atração, parece que o mundo está se abrindo a partir daquela pessoa porque estamos nos vulnerabilizando de uma forma muito especial, estamos fechando os olhos e entregando-nos ao encontro. Por isso, é natural, diante desse estado de vulnerabilidade, irmos para estados regredidos e descobrimos que somos muito apegados, paranoicos, ciumentos, possessivos, carentes… O beijo, às vezes, é a porta que abriu acesso para o que estava escondido na máscara ou era o tesouro que a máscara “esperava” encontrar… e quanto mais a máscara está ativa no seu trabalho e menos conectada com o aspecto vulnerável, mais forte será o apego ao beijo, isto é, o apego à vulnerabilidade – que é a porta de entrada para os nossos estados mais regredidos, dependentes e sensíveis. Por isso, tomem muito cuidado com quem vão beijar.

Então, quando meditamos nessa nossa tradição não dual, sentamos ao modo natural e isso significa “sentar com a nossa nudez”, sentar como somos. Quando fazemos isso, estamos abertos e sensações, pensamentos, emoções e impulsos vêm e vão. Do mesmo modo que não devemos nos apegar ao beijo bom (e sim experimentar abrirmo-nos para a experiência que ele nos traz: leveza, abertura, desejo, aventura), sob o risco de nos tornamos regredidos (dependentes, carentes, possessivos, etc), devemos também nos abrir para a experiência de meditação sem nenhum apego ao que esteja surgindo, dessa maneira vamos descobrir que somos a abertura, não somos uma coisa.

É nesse sentido que vamos dizer que somos o processo em fluxo. Somos o processo porque sempre estamos inacabados e vamos nos “inacabando”. Nosso inacabamento é rico, embora nada dessa riqueza seja explícita. Uma vida é uma caminhada, é o contato com diferentes pessoas, seres e condições, é entrar em contato com diferentes emoções e experiências. Uma vida é descobrir-se água, fogo, terra e ar, céu, espaço. Uma vida é muita coisa, quando não estamos presos na máscara.

A máscara, contudo, não vê a vida, ela institui e controla o mecanismo fazendo com que o beijo não seja frequente e, assim, o encontro com o amor se torna algo muito “especial” e, por isso, desordenado. É por isso que é tão comum nos desequilibrarmos quando estamos diante de “alguém especial”, porque não estamos nos tratando com o devido carinho e admiração.

Então, o caminho do amor é tanto ser capaz de realizar esse olhar para com a vida, como também ser capaz de sentar e meditar – para deixar que o atravessamento revele que, sem agarrar o que quer que seja, ainda existimos e podemos estar plenos. Dessa maneira, o beijo da vida não nos desequilibra, os príncipes e princesas, bem como as experiências especiais não nos capturam.

Usamos a meditação como modelo da vida e vice-versa.

Tudo se torna o campo de prática.

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