A crise nas projeções como caminho de descoberta – parte 1

René Magritte

Quando a mente está o tempo inteiro se baseando em algo para sentir-se segura, a experiência de si mesmo está sempre sob ameaça, sendo necessário manter-se ativa, afirmando-se.

A vulnerabilidade de estar sob a dependência do outro faz com que o “eu” esteja carregando uma ansiedade constante, mesmo quando tudo está aparentemente bem. Essa ansiedade surge porque o eu sabe-se vulnerável, mesmo quando está conseguindo jogar bem o jogo.

A vulnerabilidade se faz presente quando estou ocupado com a manutenção, com a “organização” ou construção de uma relação com o objeto. E já vimos que esse objeto pode ser externo, pode ser interno, pode ser idealizado ou pode ser concreto.

Posso ser refém da crença de que sou bom, posso ser refém da crença de que vai dar tudo certo. Posso ser refém da minha capacidade de estruturar, posso ser refém da minha incapacidade de me organizar. Posso ser refém do meu impulso de agredir, posso ser refém do meu desejo de comer algo, etc.

Por isso, todo “eu” está em um jogo vulnerável que pode se revelar como uma crise imediata (quando as escolhas aumentam o sofrimento) ou como uma crise posterior (quando a vida ou o outro não confirmar que sou aquilo que sou).

Nesse sentido, nosso estado atual não se dá conta de que, sem abordar a dependência de ser alguém baseado em “algo”, estamos sempre na ansiedade que pede a auto-afirmação do que quer que nos acalme.

Felizmente, as crises vêm, e isso significa que uma ruptura drástica se deu: o sujeito não conseguiu permanecer ligado ao objeto ou essa mesma ligação chegou a um nível de sofrimento muito grande.

Quando isso acontece, a ligação se mostra impossível ou incoerente e o sujeito descobre que não é aquilo que achava que era, e por isso sente um grande sofrimento.

Quem sou eu?

Eu sou a fonte de amor, vou fazer tudo dar certo.

Eu sou a fonte da dor, nada vai funcionar.

A vida é mais que isso, mas não conheço, eu apenas “me” conheço e sou familiar comigo. Quero a comodidade de mim, ainda que ela me intoxique. Quero que o meu sujeito continue prevalecendo, e para isso preciso da ligação ativa com o objeto que o confirma.

A crise não possibilita isso, então posso agarrar-me a um novo objeto, por exemplo, “a vida é ruim para mim, sou injustiçado” ou “preciso de um novo objeto” ou “preciso me agarrar a minha tristeza, assim estou seguro”, etc. Dessa forma, posso seguir me intoxicando.

Porém, quando a crise se dá com a introdução da natureza da mente, podemos nos perguntar: quantas vezes eu fui esse? Quantas vezes fui essa? Que falta me faz me segurar assim? Que dificuldade tenho de soltar esse determinado apego sobre o mundo ou sobre esse aspecto?

Essa ansiedade é o ponto mais limitante da atividade da meditação. Porque a meditação na não dualidade é uma zona “morta” para o ego, é uma zona “amorosa” quando fazemos práticas de integração, e é uma zona “entediante” quando fazemos práticas de foco, como shamata. A ansiedade é aquela que busca continuamente afirmar que “eu sou eu” e “eu sei o que é o mundo”. Por isso, se diz que quando você decide meditar e começa a fazer a prática, os “maras” (ou ilusões) se agitam. Você está começando a sair da prisão que tem gosto de casa, e descobrindo o que é ser sem estar baseando-se em algo, segurando uma ideia, guardando uma posição.

mais recentes

Construir o caminho que leva até o amor – parte 7

Construir o caminho que leva até o amor – parte 6

Construir o caminho que leva até o amor – parte 5

Construir o caminho que leva até o amor – parte 4