Construir o caminho que leva até o amor – parte 7

A grande dificuldade que acontece no caminho budista também acontece no amor. Usualmente, acredito que "entendi" ou que "tenho o amor dele ou dela" ou mesmo "tenho um corpo".

Essa é a falácia do apego.

O apego é um movimento e traz um senso de fortaleza ao ego. O sujeito se sente existente porque agarra algo e isso lhe traz segurança. A máscara que carregamos nos trouxe certezas, mas mantém-nos presos às expectativas do passado.

Quando avançamos no caminho espiritual sem discernir bem os processos aos quais estamos sendo convidados a fazer, simplesmente nos apoderamos de informações e aumentamos nosso ego, sem espaço para a transformação real.

O mesmo no amor, simplesmente querer ou se sentir atraído não é suficiente, embora isso traga certezas ao ego. Como já sabemos, a grande forma de destruir relações é imaginar que, como "eu sei como eu funciono" e "como sei como a vida é", eu sei quem você é e como você funciona.

Também a nossa conexão com o corpo pode parecer simples, mas ela também pode estar presa a outros apegos, como "eu deveria ser mais assim ou mais assado", "isso em mim não é bonito", etc. Em outras palavras, há muito espaço para o apego a uma ideia impactar nossa relação concreta com quem somos.

Então, se queremos amar, primeiro começamos com um bom discernimento, depois começamos com um desejo profundo de aprendizado, e podemos, para isso, pedir apoio a forças a que não fomos introduzidos, como a compaixão, a alegria e a dignidade.

Nos ensinamentos dzogchen e mahamudra, um ponto é fundamental: não existimos como coisas. Onde quer que você olhe, coisas são apenas ficções porque todos os nomes são apenas designações ou imposições. A grande sensação que faz com que os seres, na nossa cultura, se debrucem em ansiedade, é a confirmação da existência pelos pais.

A ferida do não reconhecimento é tão grande que os seres vão se tornando fortes ou fracos de acordo com aquilo que os aproxima mais da sua busca idealizada ou real do amor dos pais. Posso continuar esperando a mãe ideal vir me resgatar, posso ser forte como o meu pai real queria que eu fosse… tantas combinações são possíveis, e esse é o drama dos seres que associam a existência de si mesmos à confirmação de outrem.

Vimos aqui como isso foi construindo máscaras e mecanismos, e a importância de cada um conhecer bem o seu mecanismo para parar de envolver os outros no jogo de nossa falta, como se alguém pudesse compensar nossa ferida.

Perceber que ninguém pode compensar sua ferida, nem uma substância, nem um pensamento mágico pode fazê-lo, é o começo do caminho adulto. O adulto é que tanto aquele que resgata a parte ferida em si, para não projetá-la no outro, quanto é aquele que vê a necessidade da criança como a limitação sincera desta: "você, minha parte machucada, não tinha outra alternativa a não ser esperar o amor dessa pessoa como se ela tivesse condições de oferecer isso. Você, minha parte machucada, só via a necessidade de receber o amor, e não conseguia ver que aquela pessoa que você chamava de paimãe também era um ser ferido, com muitos obstáculos". Eu tanto reconheço sua dor, parte ferida, quanto eu percebo a limitação do seu olhar.

Então, você começa a perceber que a força da criança em busca da atração dos pais permaneceu aberta até hoje, agarrando-se a mecanismos, sensações, personagens, pessoas, e negando outros aspectos de si. Você passa a ver que o apego é uma força incrível em você, capaz de estruturar vários castelos e fortalezas e pântanos e pesadelos…

Então, você inicia o caminho da renúncia do apego e começa o caminho do amor que é a compreensão de que não pode apenas olhar para seus pais com os olhos da criança, e sim com os olhos do adulto que vê a dificuldade deles com temas como amor e conexão, por exemplo.

Só isso já é perceber muito, porque significa que você está podendo ampliar um pouco mais a perspectiva e perceber a vacuidade daqueles corpos: para sua criança, eles eram a fonte de amor, a expectativa de amor e, também, da dor. Para o seu adulto, eles são apenas pessoas complexas, com pouquíssima capacidade de conexão emocional real.

E então você começa a ver a sua própria história com o apego, de como você foi se construindo a partir de referências específicas em detrimento de outras. E como quis que alguém te amasse assim, com a distorção que você mesmo fazia de você. E também percebe como o amor era condicionado, como era algo que você conseguia agarrar mas não soltar. E talvez nesse momento você comece a se interessar pelo ensinamento que diz que a verdade sobre você não está no apego, a verdade sobre o que quer que seja está no apego ou na definição porque toda ela é inconclusa, relativa, parcial.

Nesse momento você recebe a instrução sobre a natureza da mente, a natureza de que tudo o que você é não pode ser resumido a "nomes", incluindo você mesmo. Você começa a ficar curioso com o fato de que uma árvore não seja uma árvore simplesmente, ou que os objetos ao seu redor não tenham necessariamente, o nome que possuem. A rede da interdependência te captura e você descobre que, quando está possuído pela carência você vê algo, mas quando não está possuído, é diferente.

Quem é você afinal? O que é o outro ou o mundo? Você percebe então o campo radiante da experiência que não tem nome, é inapreensível, sempre presente. E você lembra que se talvez seus pais tivessem tido acesso a esse conhecimento, eles não teriam se agarrado a personagens difíceis ou histórias tristes.

E aí você descobre que não apenas teus pais, mas todos os seres podem ficar presos nisso. Assim um amor novo surge em você, um amor que, ao reconhecer que o apego não é o melhor caminho, se anima para se relacionar com os seres deste a tua plenitude, desde o teu oferecimento e não dos jogos do teu eu.

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