Francesca Woodman
Apesar da crise ser sempre inerente ao apego, quando a vida está baseada na manutenção de um eu e na respectiva atração por um determinado objeto, não nos damos conta disso porque estamos dentro de uma estrutura familiar de manutenção, porque conseguimos construir um senso de segurança, de agenciamento, de conforto conosco e com o mundo, apesar de estarmos sempre na ansiedade. Pelo menos as pessoas, quando olham para mim, não pensam que sou ansioso e sim que sou produtivo. Pelo menos meu círculo mais íntimo não desconfia que sou atravessado por pensamentos tão críticos e acham que sou bondoso. Pelo menos a minha angústia é deixada de lado e as pessoas vêem apenas o meu esforço. Então, a ansiedade inata dessas posturas não é tida como problemática porque o benefício secundário de “passar uma imagem”, ou o apego à auto-imagem, a imagem de si, é mais importante.
É lógico que esse é um modelo que vai produzir uma grande crise em algum momento, porque simplesmente não pode ser mantido sem consequências muito intensas – entre elas, a exaustão de sustentar algo que não se é, a pressão interna de tentar segurar aspectos de si ou do mundo, a defesa contra os fatores externos que são contrários ou diferentes. Então, o modelo no qual acredito que a vida é o apego a mim ou ao outro é ansiogênico, criador de ansiedade. Quando damo-nos conta disso, começamos a perceber que a “paz” falada pela tradição consiste em conhecer a mente tal como é e não em operacionalizar essa mente.
A mente, quando inflamada pelo vento do apego, não consegue ver-se separada do objeto, ainda que isso vá trazer um estado de tensão constante. No que consiste então a paz? Primeiro, observe o resultado do apego e toda a ansiedade velada que você vem carregando enquanto tenta ser de uma determinada maneira para si mesmo e para o mundo. Veja, ainda neste ponto, o quanto você vem “negando” a si, impedindo aspectos e processos seus de virem à tona e de se sentirem mais satisfeitos.
Por exemplo, a carência precisa de colo, a tristeza precisa do choro, o luto precisa da pausa, a agressão precisa da reparação, etc. Dessa maneira, você vai perceber que vem negando a si mesmo, e também negando ao mundo, a possibilidade de conhecer a sua busca por colo, a sua necessidade de pausa, de choro, de reparação, etc. Depois, tendo conhecido o resultado do apego como ansiedade, pergunte-se como seria não precisar carregar esse peso, esse personagem, essa crença, essa emoção, essa perspectiva. Então você começa a vislumbrar – ou intuir, ou construir – um modelo de paz; a ideia de que, apesar de talvez não ter sido conhecida ou estimulada na sua família, a paz é necessária para a felicidade.