Cena de “Persona”, filme de Ingmar Bergman
Quando a mente não se dá conta de que é abertura, ela precisa se basear em algo. Geralmente, nesse sentido, a criança olha para onde os pais estão olhando. Porque ela deseja, destes, tanto o afeto quanto a admiração, ela se nutre dessas duas maneiras: sentindo-se, no primeiro caso, “tocada” e, no segundo caso, “vista”. Alguns pais e mães tiveram dificuldade de oferecer o toque, por isso as crianças aprenderam a buscar admiração e a não se sentirem à vontade com o próprio corpo. Isso significa que um objeto foi criado e internalizado como sendo “negativo”, por exemplo, o corpo, e outro foi entendido como sendo positivo, por exemplo, a performance.
Nesse exemplo, vemos como a experiência de si passa a ser conflituosa. Afinal, a criança segue tendo “corpo”, mas aprende a rejeitá-lo, a julgá-lo, a controlá-lo. E ela segue querendo ser vista como realizadora, exitosa, brilhante. O que aconteceu, nesse sentido, é que, por não saber-se abertura e criatividade, e por ser exposta a uma situação familiar transgeracional onde tampouco se sabia que tudo em nós é interessante e digno de atenção e carinho (corpo e performance, nesse caso), a criança apegou-se a uma ideia de si e excluiu outra, construindo uma personalidade específica.
Toda personalidade é uma manutenção, é um “campo” de força em um determinado sentido, que é mantido esforçadamente e reforçado a partir de pensamentos e ações. Então, parte da energia psíquica, que é a pura energia criativa do campo (e da vida), é utilizada em “manter” a personalidade. É por isso que dizemos que isso é uma artificialização ou uma elaboração, um esforço. Quando, na meditação não dual, dizemos “sente-se, sem esforço, sem foco”, estamos dizendo que esse não é um trabalho para o ego porque este é sempre um “tarefeiro”: ele está muito ocupado em manter a imagem idealizada na superfície e em deixar as imagens ou partes não tão interessantes nos bastidores.
É por isso que a crença contínua na personalidade é ansiosa: é como se eu estivesse sempre lutando com as forças que acredito que vão garantir o meu acesso ao amor (dos pais) e não permito que outros aspectos surjam. É por isso que chamamos isso de manutenção, o que é mesmo um processo hercúleo, afinal, o mundo me traz situações difíceis para minha personalidade idealizada. São essas situações que chamamos de crise.
Quando alguém vivencia uma crise, às vezes, no budismo, se diz: esse é um presente das dakinis, das entidades de sabedoria, como se estas estivessem interessadas em mostrar para a pessoa que o apego estava na manutenção da personalidade e não na experiência da verdade. Esses exemplos são muito conhecidos também em outras culturas, como a história de Jó, onde um homem passa por muitas provações mas não abandona sua fé, apenas aprofunda-a cada vez mais. Em outros momentos de crise, contudo, outros homens escolhem outros caminhos – como o medo que faz Darth Vader buscar poder para impedir a perda das pessoas queridas; ou Dorian Gray que deseja ser belo para sempre.
O ego vive de pactos que serão inevitavelmente rompidos porque a impermanência irá devorar todas as construções, é isso o que ela faz. Isso significa que as crises são apenas mensageiras do que precisa de regulação, de mais suavidade, mais compaixão, mais amorosidade. Em outras palavras, eu preciso aproximar de mim, com admiração e conexão concreta, ações realistas amorosas, de modo que possa estar em contato com a minha fome e não construir pactos nem privilegiar aspectos idealizados em detrimentos de outros.
É por isso que a prática da meditação é uma provocação, um peso, uma tarefa difícil para o ego. Ele não consegue fazê-lo e a resistência ao sentar é apenas porque ele sente que precisa estar muito ocupado. Quem senta na meditação não dual não é ninguém, é o espaço aberto, o modo natural que sabe que vai ser atravessado pela tempestade e também pelo céu limpo, e não vai se agarrar a nenhum dos dois. Fazer isso seria perder tudo o que pode surgir no caminho.