Francesca Woodman
Hoje vamos olhar a natureza dos demônios, ou das obsessões, ou dos transes aos quais podemos nos predispor quando não estamos olhando para a abertura criativa da vida nem participando dela.
A criança que não participa ou conhece o amor da mãe e não entende esta como parte da vida, ao não fazer os lutos, não deixa ir o trauma nem dá passos na direção da sua própria trajetória, diferenciando-se e satisfazendo-se com alegria, tristeza e contentamento. Ela vai se agarrar a ideias sobre si, a reações sobre si, a angústias, raivas e frustrações e se tornará, assim, possuída por estas.
Ao ser possuída, a criança não vai crescer e vai permanecer presa, ainda que no corpo do adulto. Ela será como uma larva que não consegue cumprir sua trajetória e tornar-se livre. Como as larvas, comerá migalhas relacionais, comerá o destino que ela mesmo produz e reafirma.
É por isso que estudar a mente como abertura e criatividade é tão importante. A sensação de si não pode estar pautada no apego ao trauma, nem como reação, nem como sentimento ou como acontecimento, de outra forma tornamo-nos sempre ímãs, seres magnéticos que reencenam a sua história a partir dos mesmos acontecimentos.
Se você não conhece essa mente, só conhece a mente da larva. E larvas morrem de medo do envelhecimento e da morte porque não viveram o que precisavam viver, não comeram da fruta saborosa da vida-morte-vida.
Larvas se apegam, sem saber, ao corpo, à dor, à invisibilidade, ao poder, ao medo, à comparação e à ansiedade, porque ninguém as mostrou o mar grande do ser, onde, enfim, podem ser peixe, água, rocha e tantas outras experiências.
O sábio Virupa escreveu sobre a mente, que ela:
Não é uma entidade com características.
Permeando tudo como o espaço, não muda nem se afasta.
Intocada por memórias, pensamentos ou características
Desatada e não liberada, não vacila
Da sua presença imutável.
Possuídos, não vemos, ainda que a natureza da mente continue disponível. Por isso, seguimos em jogos pequenos, reféns daquilo em que nos apegamos, e perdemos o estado sem tensão onde os jogos são apenas brincadeiras e não fonte de afirmação de si mesmo.
A citação completa de Virupa:
A mente é, em si mesma, uma nomeação vazia;
Além da conceitualização, ela é Mahamudra.
Por isso ela lembra a natureza do espaço
Que sempre foi apenas um nome vazio.
Não nascida por sua própria essência
Não é uma entidade com características.
Permeando tudo como o espaço, não muda nem se afasta.
Sempre é completamente vazia e
Primordialmente sem auto-identidade separada.
Intocada por memórias, pensamentos ou características
É como a água de uma miragem.
Desatada e não liberada, não vacila
Da sua presença imutável.