A crise nas projeções como caminho de descoberta – parte 5

Francesca Woodman

Hoje vamos olhar a natureza dos demônios, ou das obsessões, ou dos transes aos quais podemos nos predispor quando não estamos olhando para a abertura criativa da vida nem participando dela.

A criança que não participa ou conhece o amor da mãe e não entende esta como parte da vida, ao não fazer os lutos, não deixa ir o trauma nem dá passos na direção da sua própria trajetória, diferenciando-se e satisfazendo-se com alegria, tristeza e contentamento. Ela vai se agarrar a ideias sobre si, a reações sobre si, a angústias, raivas e frustrações e se tornará, assim, possuída por estas.

Ao ser possuída, a criança não vai crescer e vai permanecer presa, ainda que no corpo do adulto. Ela será como uma larva que não consegue cumprir sua trajetória e tornar-se livre. Como as larvas, comerá migalhas relacionais, comerá o destino que ela mesmo produz e reafirma.

É por isso que estudar a mente como abertura e criatividade é tão importante. A sensação de si não pode estar pautada no apego ao trauma, nem como reação, nem como sentimento ou como acontecimento, de outra forma tornamo-nos sempre ímãs, seres magnéticos que reencenam a sua história a partir dos mesmos acontecimentos.

Se você não conhece essa mente, só conhece a mente da larva. E larvas morrem de medo do envelhecimento e da morte porque não viveram o que precisavam viver, não comeram da fruta saborosa da vida-morte-vida.

Larvas se apegam, sem saber, ao corpo, à dor, à invisibilidade, ao poder, ao medo, à comparação e à ansiedade, porque ninguém as mostrou o mar grande do ser, onde, enfim, podem ser peixe, água, rocha e tantas outras experiências.

O sábio Virupa escreveu sobre a mente, que ela:

Não é uma entidade com características.

Permeando tudo como o espaço, não muda nem se afasta.

Intocada por memórias, pensamentos ou características

Desatada e não liberada, não vacila

Da sua presença imutável.

Possuídos, não vemos, ainda que a natureza da mente continue disponível. Por isso, seguimos em jogos pequenos, reféns daquilo em que nos apegamos, e perdemos o estado sem tensão onde os jogos são apenas brincadeiras e não fonte de afirmação de si mesmo.

A citação completa de Virupa:

A mente é, em si mesma, uma nomeação vazia;

Além da conceitualização, ela é Mahamudra.

Por isso ela lembra a natureza do espaço

Que sempre foi apenas um nome vazio.

Não nascida por sua própria essência

Não é uma entidade com características.

Permeando tudo como o espaço, não muda nem se afasta.

Sempre é completamente vazia e

Primordialmente sem auto-identidade separada.

Intocada por memórias, pensamentos ou características

É como a água de uma miragem.

Desatada e não liberada, não vacila

Da sua presença imutável.

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