A refinação da visão
A contemplação contínua dos quatro pontos que transformam a mente ajudam-nos a “afiar” a mente e aumentar a carga energética em busca que o trabalho pessoal entre em um ponto ótimo. Por que precisamos disso? Porque o ego está em um ponto muito apaixonado por suas próprias fantasias, mecanismos, apegos e formas de controlar e organizar a vida.
O ego é apaixonado por si mesmo, pelos conflitos de sempre, pelo ideal de segurança de saber o que está acontecendo, ainda que possa estar perdido e acumulando ações negativas.
Essa “paixão” é o puro apego do ego por si mesmo, é como uma criança que não solta o colo da mãe, e, de fato, o ego o faz porque não conhece uma outra visão madura da experiência. Ele conhece apenas a sua visão, não importa para onde ela o orienta, se para experiências duras, dependentes, inflamadas, críticas, etc. Então, é muito importante conhecer a natureza do ego, a natureza da sua paixão e ver onde ela vem te levando.
Esses quatro pensamentos tem o potencial de “esquentar” a chama do trabalho pessoal e deslocar o sujeito apegado e as diferentes objetificações que faz de si mesmo.
Esse deslocamento é a chance de entender que a visão apaixonada de si mesmo não é segura, não é suficiente, nem tem um sentido total porque existem outros elementos presentes em si e no mundo que não são vistos.
Todas as visões de si mesmo e todos os apegos a estas são, apenas, a criatividade da mente, porque nada possui um sentido intrínseco, momento algum.
Então, esses quatro pensamentos são “refinadores” da visão, são “amoladores” da lâmina que vai favorecer o processo contemplativo e meditacional e também deslocar a forma de se relacionar para perspectivas mais satisfatórias. Além de colocar “fogo” nos jogos egóicos para que estes possam revelar-se e/ou tentar mostrar novas resoluções que libertem o sujeito da sua fantasia.
Os quatro pensamentos, como trabalhamos aqui:
1) Este momento é único e irrepetível. Ele é a chance concreta de realizar a visão. Todos os conceitos que possam ser colocados sobre si e os objetos ao redor são apenas ficções. A possibilidade criativa da linguagem é o que mantém a coerência da ideia de “eu” e “outro”. Você não está diante de coisas nem você é uma coisa.
Abra-se para o aqui e agora no modo natural, sem fazer nada de artificial. Logo, quando você entra em jogos de linguagem sem perceber, o sujeito volta a se construir a partir de objetos e a ocupar-se. Experimente o modo de abertura que não cria nada nem impede as criações de irem e virem. Esse é o seu pleno potencial humano, a sua plena chance de não seguir na prisão dos conceitos e se relacionar diretamente com a abertura da vida, descobrindo assim o prazer de não objetificar-se, não ser um objeto dos outros nem transformar suas relações em objetos para você mesmo.
2) A impermanência é fluxo.
Quando você senta para praticar essa instrução, descobre-se a natureza aberta de tudo e o fato de que a linguagem, a partir da capacidade criativa inerente a ela, constrói conceitos que aparentam estabilizar o mundo como “conhecido”. Mas, do mesmo modo que uma relação “morre” quando tudo fica estagnado, a linguagem também “mata” o aqui e agora a partir da designação do “eu sei”. Todo momento é tanto novo quanto é único. Apenas o sujeito, como um observador compulsivo, relaciona-se consigo e com o mundo da mesma maneira exaurindo o potencial criativo, aberto e indefinido do fluxo a partir das suas próprias categorias e definições e amparadas pela sua própria intoxicação emocional.
O momento é novo e único, quando a abertura é reconhecida.
Porém, quando não o é, o sujeito passa a se defrontar com a face “terrível” da abertura que é a impermanência, arrastando com ela tudo aquilo que pode ser identificado como “objetos” pelo sujeito: corpo, relações amadas, valores, competências, etc.
Onde quer que o sujeito encontre paz, essa será uma paz temporária que irá não apenas passar como ser fonte de sofrimento caso ele não seja capaz de soltar seu apego aí.
Além disso, quanto mais preso em aspectos mais doloridos de si mesmo, mais o sujeito não verá que está agarrado a dor, a preguiça, ao cansaço, a dependência e não conseguirá perceber que a mente é livre para construir novas possibilidades a partir de novos modelos (potencial cármico positivo), não conhecendo assim que a impermanência também é fluxo que permite novas possibilidades nascerem.