Chegamos ao fim do sétimo texto, e hoje é a lua nova do Sagadawa, o período do calendário tibetano que marca o nascimento, a iluminação e o paranivarna. O Buda escolheu o caminho do desapego de si, das suas convenções, de sua posição social, da construção cultural associada ao seu papel de gênero, de seu papel familiar, porque ele viu que, a partir do apego, ele não tinha respostas para oferecer às pessoas que amava e que, mais dia ou menos dia, iriam se defrontar com os perigos do sofrimento, da impermanência, do adoecimento, do envelhecimento e da morte.
O Buda viu que todas essas experiências causariam sofrimento e fragmentação caso as pessoas que ele amava continuassem presas a uma ideia de si mesmas e não percebessem a verdade sobre quem eram e, por isso, ele seguiu a sua jornada solitária, embora seu coração estivesse cheio de compaixão. Aos poucos, ele foi entendendo que o que os seres que ele amava, a sua família, no contato mais íntimo com eles, sua mulher e seu filho, seu pai e madrasta, estavam refletidos na diversidade dos seres visíveis e invisíveis do mundo. E que o seu apego nem a ternura íntima de uma aspiração positiva apenas, também não resolveria ou impediria o sofrimento desses seres.
Ele percebeu que os seres, quando não conseguiam estar com a verdade da sua natureza e associavam-se às suas próprias memórias, sensações, perceções, identidades como se fossem reais, não apenas sofriam, diante da impermanência, como, também, causavam sofrimento porque a verdade de cada um é apenas uma parte do todo. Talvez, nesse momento, o Buda tenha lembrado de como sua mãe, que faleceu quando ele tinha poucos dias de vida, queria poder ter estado mais com o filho, olhado para ele e vê-lo crescer.
Porque há ternura e conexão, também há sofrimento.
E porque há apego ao sofrimento, há ciclos sem fim de dor.
Então, o que o jovem Sidarta, ofereceu para nós, seus descendentes, é a introdução fundamental de que o apego é a fonte do sofrimento justamente por inibir a conexão total com a verdade. Ele traz a união de ternura com sabedoria: sejamos amáveis conosco e com o outro, e, além disso, busquemos a verdade que liberta a experiência de acreditar que eu e outro somos entidades fixas.
O desapego é a cura de todo trauma não porque ignora o sofrimento, mas porque permite que a relação terna surja com cada aspecto fragmentado: o corpo, a mente e as emoções. Parte da vida do Buda Sakyamuni são os seus diálogos com os seres humanos e não humanos, sejam estes fracos ou fortes, excluídos ou incluídos, negativos ou angelicais, humanos ou não. E com todos eles ele mostra que a fonte do transe é o apego e que, enquanto houver transe, não há como haver sabedoria porque todo transe é um recorte, é uma segmentação, é uma limitação do corpo, da mente e da energia.
Um dos pontos tocantes é que quando se ilumina o Buda retorna aos lugares e às pessoas da sua família não para resgatar o passado, mas para contar-lhes a verdade de que nenhuma felicidade surgirá da fixação.
A verdade, ele diz, não pode estar presa em lugar algum, nem dentro de nós, nem fora.
A verdade é que a abertura do presente não é definível pelo que quer seja.
Esse saber terno, ainda que possa ser chocante para os que estão muito presos a si mesmos ou a experiência do mundo, mostra que tudo é a dança da brisa e por isso a paz é possível.
Um dos momentos mais bonitos é quando o Buda sobe a uma dimensão elevada para oferecer ensinamentos para a mãe e assim ele ter chances de descobrir por si mesma o caminho da iluminação.
Então, esse nosso caminho começa com o jovem Sakyamuni que conheceu o sofrimento tão cedo e, mesmo assim, escolheu despertar.
Que nós, seres que conhecemos o sofrimento, também possamos despertar.